quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Último Reclame - por Adilma Secundo Alencar.

Perdoe-me, será meu último reclame. Onde mesmo você escondeu meu riso solto? Diga-me. Eu comprei pera e porque você não está? Eu não gosto de peras, você ao menos deveria ter levado junto com suas meias vermelhas esse cheiro de maracujá que invadiu a tarde, eu não vou mais resmungar, sua ausência me deu dez anos , eu fiquei feia. Eu evito as bancas com flores porque já não há quem cuide delas. Desisti de ter uma menina, você sabe que eu amo crianças, você sabe que dói ver tudo caindo, eu não sei chorar no ombro de amigo,ando devagar porque minha pressa já não tem razão. Quando você soltou minhas mãos eu comi estômagos, cabeças, vísceras, olhos, peitos, falos, fígado, eu continuo com fome de borboletas. Eu tenho uma escrivaninha azul , eu me sento no final da tarde e choro ter perdido seu amor e seu endereço, porque descobri uma autora pernambucana que tece versos com gosto de mangaba, eu ainda escrevo cartas bonitas e guardo minha saudade em gavetas com cadeado, não conto pra ninguém desse amor que é seu. A loucura, o desespero e a melancolia não cabem na minha rotina. Meus reclames são de desespero. Quando você vai me devolver à primavera? 
Devolva meu riso e leve sua escova de dentes.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Agora eles dois vão ter um lugar só deles, ele vai aprender a cozinhar e outro prometeu lavar a louça depois de assistir ao jornal. Todos as manhãs vão ter um ao outro e vão agradecer o encontro com silêncio. O mundo está cheio de gente,mas não é sempre que alguém se demora dentro de um outro olhar, que liga para saber se você conseguiu aquela nota na disciplina de metodologia ou que resolve comprar o álbum de sua cantora preferida só pra comentar a faixa cinco, que sabe que verde é sua cor favorita e que você adora manga, e tem preferencias por palavras assonantes, sabe que carinhos nas costas apagam até dias de transito e chuva ou que sua palavra preferida é a palavra ternura, sabe que você nunca vai chorar em público ,mas seca seu pranto mesmo assim, seca seu o pranto com um punhado  de piadas fora de hora e de doce de leite no meio da madrugada, e sabe tirar seu olhar dos classificados, dos boletos, cobre suas pernas em noites frias e chora se você estiver triste, a compaixão é cheia de dor, é cheia de coração, eles serão felizes e doloridos.Terão sempre as mãos cortadas porque as rosas do jardim deles é a rosa mais bonita que se vê na rua. Eles teem muito amor, e por isso choram.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Uma estrela na sarjeta, entre a Peixoto Gomide e a Frei Caneca. Um punhal fincado no calcanhar.
Hemorragia de lantejoulas cintilam intenções floridas.
Deu na TV que amanhã o sol vai raiar, que as arraias do oceano pacífico estão morrendo.
Ninguém falou do homem transvestido  de estrelas que matou signos militares e agora sangra cores quentes na cidade cinza.

quinta-feira, 25 de julho de 2013


Eu arrumei meu quarto para você, limpei os farelos de pão sobre o meu colchão e troquei a fronha de meu travesseiro.
Passei batom vermelho quando fui encontrá-la pela primeira ,pela segunda e também em todas as outras vezes.
Poderíamos, se quiséssemos, viajar pelo norte do país, ou de repente comprar bicicletas com cestinhas para trazer coentro da feira, ou levar livros para a praça.
Sua mãe poderia gostar de mim e você talvez gostasse de meu silêncio e eu compraria um buquê de flores azuis ou cachecol verde para combinar com seus olhos aguados e cristalinos.
Faz muito tempo que Maria deixou minha casa, mas pra todo mundo eu digo que ela está, que ela dorme comigo e conserva meu coração em azeite .É mentira. Minha solidão é um doce,menina,é um doce.Dá medo vê-la assim derrubando tantas cercas enfeitadas de cactos.Você talvez perceba o quando eu derreto , meu quando vai engolir suas vontades, um dia sem saber eu roubo você para os meus desenhos de lar.
Arabescos de seus cílios sobre meu umbigo já anuncia sua morada. Vou jogar seus brinquedos pela janela e forrar sua cama com folhas amarelas cheias de frases  de Neruda.
Eu não vou deixar os papéis prontos, tudo será eternamente branco antes que você toque essa gaita transparente cheia de fonemas de sua língua de amor.
Se quiséssemos ,seríamos um caso sem solução.
No verso da nossa língua decretar aberto os corações desesperados ,cansados, puídos, ralos.
Em mel , em sangue , em neve, fazer festa no meio do nada, cuspir as memórias que não alimentam.
Oferecer meu coração, esses calos no olhar e meu encantamento bobo pelos seus gestos , seus zêlos, seus sumiços, por essa beleza vadia que seu rímel destaca.
Não vai,menina.
Não vai.

domingo, 7 de julho de 2013

Espera,amor.

Quis meu coração, 
inútil, mofado
cheio de espinhos.
Eu fiquei com vergonha
E se não funcionasse mais?
Fez um laço no meu vestido 
Lavou a louça e sorriu
Não ouvia minha conversa com as margaridas 
que balançavam soltas na janela da cozinha.
Acreditava,eu sei, acreditava que meu desespero era amor,
Quando era espera.
O olhar perdido era só vontade de explosões
De mar na boca da noite
Um vislumbre ,uma graça entre um talher e uma alface
Entre seu jeans e minha saia
Esperávamos duendes pulando a janela trazendo flores,
Fazendo sol com as mãos,
Era o rito.
Era espera, amor.
Espera,amor.

domingo, 2 de junho de 2013

Dadaísmo de bar.

Colarinho,copo e boca.
Mesa,coxa,tesão.
De Caetano,de lado,de gole em gole.
Sorver Bob Marley e arrotar Foucault,cuspir um conto num canto do bar.
Bruta Flor que forja a rima por cima do muro do óbvio.
As cores de Almodóvar ou as saias,ou as cintas, os caminhos das mãos, os enfeites das orelhas, dos olhos, dos ombros,dos lábios.
Veste a roupa e passa por cima do filho,do marido,da minha colcha de retalhos.
No bar de sempre deitou a memória de ontem.
A toalha de mesa,os ditos ao pé do ouvido,a vida além do livro de ponta, da ponta da caneta,da pasta de dente.O pasto das gentes.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pernas, café,lençol, filme, música,mantra.
O frio , o fim de semana, chuveiro quente, maracujá, xampu.
Tênis, caneta compacta azul, livro de poesia, panfleto do cinema.
As cores escorrendo, o peito pulando de amor anônimo, o olhar desviando da dor, os nós, a noite, mesa,bar,comida e palavra, carinho e feição .
Maria mudou de casa.
Agora, uma palavra me tomou o corpo e engravidei de mar, o mar serenou no peito e amanhã vai ser de brisa,brisa de mulher e mãe, eu comi estrelas , eu comi estrelas.