terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

viver.

             Não foi o câncer, nem a soma de tantos anos juntas, nem os holofotes sobre aquele enlace, foi a declaração de quem ficou, triste e sentenciosa: "foi-se o amor da minha vida".
             Os sentidos viram cilada quando um amor se ausenta pela eternidade, as roupas no guarda-roupa são a realidade palpável de que aquele amor existiu, andou e escolheu sapatos de cores sóbrias, não há produto de limpeza que dê conta do cheiro nos travesseiros e as músicas cessam, cessam. Um soluço será ouvido de madrugada e também às dez da manhã e o corpo cumprirá o ofício de lembrar o sexo, agora, tão carente quanto um homem em terra estrangeira pela primeira vez.
        Apenas um prato sobre a mesa, um ingresso, reserva para uma,passagem para uma, todos os guias abertos no computador são de  buscas pares, será necessário apagar o histórico e não comprar mais flores.Será preciso também evitar o tumulto alegre dos lugares cheios, será necessário não se matar.
        Mas tudo é das dores imaginadas, no fundo, deve ser bem pior.
É preciso viver,viajar e transbordar amor.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Janeiro.

Calor e chuva saudaram o dia primeiro, e de tanta fé coletiva virou rito de passagem, e importa para os olhos voltarem-se para o que foram aqueles dias todos ditos ,agora, do ano passado.
 Cores brancas e desejos escritos em camisetas, no céu, nos olhos,nos beijos,acreditar é a ordem.
Eu desejo, mesmo,mais simplicidade para viver no mundo,porque não é simples não. Não ter ódio é um esforço de quem tem amor, porque quem tem amor é o tempo todo violentado pela ordem do mundo que é de guerra e morte, quem tem amor fica atônito, fica zonzo de como as coisas básicas da vida como comer , gozar,dormir, são tomadas à força por uma crença caduca que molda e amputa os direitos de quem, tomado o discurso, foi excluído de gozar seu próprio corpo, quem não come, quem tá na rua, quem tá preso por tijolo e cimento e vive o auge dos nervos encarcerado.
Há tanto sangue e lágrima na parte mais pobre da cidade, as lágrimas das mulheres que dormirão todos esses dias de ano novo no sereno,dos homens descalços.
Mas a simplicidade também é difícil quando há o desenredo do peito:as tensões familiares todas agudas como cólicas renais,há luto ,há silêncio, há promessa.
Que haja saúde no corpo e na linguagem,porque eu quero as coisas boas do corpo e da palavra.
Quero, de mãos dadas, de Flor, transbordar as coisas simples,  comer, cheirar flor, cozinhar comida, pisar pedaços novos do mundo e estar, gozar o corpo no outro corpo, e nos silêncios que valem mil poesias dizer em abraço o que as palavras, cheia de conjunções,de predicações, mentem porque não alcançam, as palavras não sabem como  meu corpo depois de tanto gozo quer dizer,nem como eu me sinto quando num instante curto, que minha memória fotografa, eu vejo uma mulher iluminada de gozo com o mar aos seus pés, com o mar entre as pernas. 
Entender as espontaneidades das coisas que simplesmente são não é difícil, não há nada para entender é olhar é olhar e agradecer.
Há muita poesia no mundo, despir o olhar e gozar o mundo.
Insistir em ser,mesmo nesse mundo tão tumultuado e repleto de soldados do mal.
Não vou à guerra.
Apesar dos convites multiplicados, não vou à guerra.Não ir à guerra é tanto uma covardia como uma provocação,porque o sangue virulento dos que imprimem ódio quer comunhão, quer ver a calma com um facão cego na mão. Quem já não tem tento para se encontrar  não quer senão confronto, conflito.
É uma provocação insistir na crença das coisas frágeis,como a rosa amarela morrendo na terra molhada, ou como uma rosa desabrochando alaranjada no meu quarto, é mais fácil apostar na guerra, o ódio foi racionalizado e legitimado como única possibilidade de acerto, são os que proferem "foi sempre assim". 
Que seja um ano de saúde do corpo e da palavra.


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Iemanjá.

                Vestida de branco, carregava duas rosas brancas e languidas  do calor soteropolitano ,pisou na areia quente e branca, mesma areia em que pescadores pisavam,suados,testas franzidas e iscas esperando peixes, mesma areia dos cartões postais.O vento levantava seu vestido curto,balançava seus cabelos também curtos. Sua pele morena, suas mãos carregando rosas, os barcos quietos no mar,o cenário foi de azul-verde-mar,foi um delírio de luz , ali meus olhos nadaram livres, gratos,como quando um sol me invade.
                 As rosas dançaram no quebrar das ondas,Iemanjá lhe sorriu, eu sei, vi no horizonte.Areia, água salgada, pétalas dissolvendo-se na infinidade verde daquela manhã, sol pintando minha pele. Os pescadores curiosos adivinhavam a conversa das mulheres de água, apesar do olhar afoito pelo corpo de mulher, silenciavam, a fé na Rainha do mar, ou a espera do peixe, calava os desejos dos pescadores,e em paz seus olhos conversaram com ela. Nos pentes,perfumes e exuberância dentro de pequenos barcos escupidos em gesso leve repousavam os enfeites para agradar Iemanjá,lá seus olhos repousaram,emocionados do seu sal, brilhantes como aquele sol que brilha nas pequenas ondas , eu sorri e rezei uma reza de água,uma reza de sertaneja que encontra o mar pela primeira vez.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A fragilidade do olho que vê.

  O medo pode minguar a lua prometida,na fundura de um coração alheio ruínas podem ser obstáculos de cimento e pedra, mas na sabedoria do gozo um encontro se faz mar, não sem o medo do ímpeto de uma cismar maior acumulando cinza sob castelos pisados de talco e mantra. O cheiro de cravo e açúcar cozinhando um coração nu e recém-nascido ,impropérios de uma carne virgem de unção e rito pulsando a espera das horas por  um sim que nunca mentiu a carne crua de um carnaval às avessas.Um olhar move um oceano e destrói cidades ,mesmo  distante,erguidas sobre festim e bálsamo. Arrancar uma janela da tua casa e levar seus medos para terreiros pagãos, festejar num balão a vontade de voar, desesperar nas tuas mãos as dores que o mundo me cingiu nos olhos ou ser silêncio e olhos querendo teu corpo como um corpo carente de pão,água e palavra, comer as nuvens nos signos que tua língua enreda, ser ouvinte do teu canto de sereia, nas alegorias vistas e revista ,deixar que seja tua palavra pão e água do meu corpo. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

mãos

O meu mundo está feio
O meu olhar quer cair nas tuas mãos,essas
mãos que tricotam lã
e verbos
misturam temperos
escrevem artigos

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Repartida

                        Deixou os filhos com o marido bêbado, burguês e bruto e fez as pazes com o vento. Chorou pelo destino de Laura, a mais nova, Ricardo, mais velho e já bruto, adolescia sob um cara ossuda semelhante  à figura do pai. Helena abortara duas vezes no último ano, uma viagem para um congresso e depois uma noite de sexo com seu melhor amigo,tudo retalhado pelo medo. Rasgados os sonhos e repartidas as responsabilidades,a culpa foi convidada a se retirar.
                 Quis trocar as roupas ,trocar o corte de cabelo e o andar, e assim fez. Curtos e claros substituíram longos negros, e seu batom vermelho virou o imperativo de sua boca. Não foi simples, como tudo que Helena vivera, foi de sangue, medo e pulso.E assim numa quarta-feira de manhã depois de deixar Maria na porta da escola,ela soluçou dois dias e viajou para um país onde a língua não lhe lembrasse os signos de seus estigmas e quando acordada sob o pôr do sol de um país estranho chorou nos braços do mar, todos a chamaram "louca" numa língua que lhe soara mole,ela amou o desconhecido e deixou em Laura e Ricardo novo signo de mãe, arrancou as algemas umbilicais e foi e deixou viver.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Ipê amarelo.



              Dona Joana quis a vaidade de planejar um filho, e o sonho do filho próprio abriu-lhe em sangue, grito e placenta ,seu lugar no mundo.
         Nascido em fevereiro,Augusto era mais alegoria que homem.Filho adulado de dona joana,ele levava a vida com a mesma alegria de quem passa uma catraca de metrô numa segunda-feira de manhã. Augusto não gostava de viajar e nem de pão francês,bebia chocolate quente todas as noites,e nunca perdera um dia de trabalho.Um dia esse rapaz saiu da rotina comum e feia,foi assim: atravessando uma esquina movimentada perto de um parque que nunca entrara, um exuberante ipê apareceu, assim como os anjos materializam-se (que nem nos filmes), e tomou  tudo o que antes era vista de Augusto, tonto da beleza viva que o ipê atava ao seu itinerário,ele não viu quando uma bicicleta o atingiu, na queda depois da batida, ele ralou os cotovelos. Lúcia,florista,voltava da loja que Augusto nunca entraria não fosse um ipê amarelo luzindo amor na cidade.
                Ele ficou uns dias afastados do trabalho, e Lúcia pôde apresentá-lo, numa tentativa de recuperar-lhe a queda,às flores mais macias e cheirosas de seu jardim.