quarta-feira, 13 de agosto de 2014

A generosidade do mundo.

Porque depois de dez anos aqui, já estranho menos a cidade, o susto é todo dia, porque por aqui todo dia vejo um jeito novo de vestir, de pagar as contas,de dar às mãos a um outro.Ganhei tanto,não imóveis, grana,estabilidade, rendimentos, e esse imperativo consumista que ergue bandeiras e sustenta dores crônicas.Não,a vida me deu gente,pessoas que brilham meus olhos,porque são anjos de luz que me querem bem e que ganham meu amor em palavras e companhia.
Não escolhi uma profissão confortável,escolhi o que está no olho do furacão das mudanças, falo de preposição,prostituição,feminismo, argumentação."Sou professora, todo dia repito essa interrogação "sou professora?"às vezes rindo,outras não. 
Abro livros e traço planos,não sei pensar a longo prazo e se resolvo  estudar é pela possibilidade de descoberta em cada aula, o mundo está para o tumulto, está para um angu de mal entendimento,eu quero mais calma.Quero ir mais vezes aos parques,aos teatros, talvez até o final do ano eu releia Saramago e descubra outro livro de poesia muito bom e ainda desconhecido, preciso comprar cachaça de gengibre e aprender receitas de tortas salgadas.
Eu não estou com pressa para as coisas que chegarão generosamente se tiverem que chegar,meu presente é mágico ,é milagre de corpo em atrito com o mundo, meu corpo com todos os meus sentidos sãos goza meu tempo, minha saliva, meu suor,minha menstruação, minhas unhas e meus dentes estão generosa e abusadamente gozando o meu presente, minhas mãos velhas esperam minhas rugas que já aparecem e minhas pintinhas vermelhas (iguais as da minha mãe) me avisam dos anos.
Envelhecer é muito gostoso. Eu não tenho medo do tempo, eu sou tempo estampado em sentidos e pensamentos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

dança.

Por toda fruta madura molhando minha boca no gosto das coisas sãs e vivas.
Porque na agonia de uma semana que anuncia a guerra,eu quero o verbo que diga daquele gosto de cerveja e chuveiro quente, quero no aconchego doce de lençóis desarrumados encontrar um gesto que diga as coisas bonitas sentidas pelo fôlego apressado de quem quer espalhar flores na luz azul das tardes frias desse inverno doce cheirando a amêndoas.
Com uma doçura de teimosia e cisma pegar as malas e partir, espalhar pelas cidades antigas minha mãos velhas dadas as tuas, macias  e pequenas.
Tomar café numa praia distante e beber engolindo novos horizontes , tirar a roupa pelas camas e cantos do mundo,porque meu corpo quer dançar com o teu e o mundo é pra ser dançando.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Fevereiro -por Adilma Secundo Alencar.

Esse verão é dela,unhas,esmaltes,cabelos,silêncio,brincos,é dela esse luar.
Desfila desejo,nua,pisa nos meus lençóis e molha meu riso de suas vontades. Arranca desejo entre uma mordida e outra e fevereiro abre os braços e as pernas para sua explosão. Risca planos para a noite,dorme o esquecimento de uma manhã.
Arrisca um coração de água e escova os dentes com uma beleza que tonteia ciganas e provoca orixás.
Nem búzios, nem novenas,é de tambor e suor, é carne de fevereiro cobrindo um coração escarlate, cru num susto de verão, em cortes vivos de memória.
É desfile,alegoria, fevereiro se abriu em cirandas ,maracatus, bailes,flores e profusão de desejo, a pele é visgo de perfume e gosto.
Misterioso sono, insondáveis  sonhos,enquanto o corpo visga um olhar de leão,rezando mantras de sol pra clarificar seu sorriso com gosto de café e pasta, de sono e zelo.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Ela.

                       Eu fiz festa dentro dos meus olhos quando ela chegou.Estendi as mãos e abri os potes de café e de açúcar como se fosse fazer um rito ancestral, e talvez seja antigo esse querer bem que quer dar de comer,de beber.
                        Algumas estrelas cintilam nos nossos olhos e achamos numa ingenuidade doce que lá estão para ver as estrelas perfumadas que nosso suor emana. Mas estão naturalmente,como está meu tesão pela sua voz em sussurro anunciando o céu em verbos molhados. E nossas palavras são brincos,são saias de viscose e renda enfeitando a frescura azul de nossas vontades.
                        O mundo continua armado de lâmina,de tédio,de roupas sérias, nós seguimos nuas de razão e amantes de beijos,mordidas, carinhos e flores.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Festa - por Adilma Secundo Alencar.

Dançam em pele
O passo anunciando desejo
Escorrendo desejo entre os dedos
Entre as coxas
Os olhares nus incendeiam de desejo os tímidos da sala de estar
Não fazem sala
Fazem festa

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

vaidade -por Adilma Secundo Alencar.

Quando lembro que podes não gostar de mim
Minha vaidade se entristece
De reluzente fica tímida.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

sereno.

Tua língua é metáfora enfiada no meu ouvido.
tua pele é desaguar ,enxurrada alagando instinto.
sina e canto de samba.
o sereno convidou Maria para dançar.
as pernas tão comoventes quanto os olhos
me conduziram por cadências nuas,nuinhas
fiando gosto de madrugada e terra
gemendo silêncio de marés
abri os olhos e Maria,nua como como meus olhos,
Maria me disse indecências e atou minhas mãos  às dela, só com o olhar.