quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Eu queria te fazer um poema

Hoje à tarde eu li uns poemas daquele livro novo. Eu adoro poesia, semana passada mergulhei nos poemas do Manoel de Barros e fiquei até com dó de ter comido rã frita na meu aniversário, mas passou (o sentimento sobre rã). Hoje eu fiquei ouvindo umas poesias do Drummond e do Pessoa no YouTube. Um dia eu quero fazer uma poesia para dizer de todos os seus signos. Agora mesmo, se eu soubesse colocar todas as cores do meu quarto que te esperam, a sua fronha de cetim, que eu sempre acho que é seda, porque agora mesmo procurei o google,mas não entendi a diferença,eu queria fazer um poema e colocar dentro dele o sentimento de sexta à noite, porque eu sempre acho que o próximo ônibus que para em frente a minha casa é o que te traz, e queria um poema que dissesse da saudade antecipada que me vem antes mesmo que você pegue o ônibus no final do domingo. No poema, esse subjuntivo esperado, eu colocaria também essa vontade de ter um canto só nosso, eu podia colocar no poema, meu medo que você fosse buscar meus chinelos, depois daquela confusão toda no mercado de Aracaju. No poema, eu colocaria aquele ocre raro e único que fez fundo para tua cara sorrindo e chorando sobre as águas de minhas raízes de memórias infantis, naquele rio das carrancas, das histórias de seu Antonio. No poema, caberia a alegria doce de quando você acha um cabelo branco em mim, e a gente sente que o tempo está passando e estamos juntas, e estamos escancaradamente felizes. No poema eu colocaria a alegria de te abraçar nua, eu queria um poema agora, um poema que fosse como um maçarico derretendo cobre, um poema que fosse feito de algodão  e que atravessasse esse trânsito das avenidas inchadas que separam minha casa da sua, um poema de algodão que vencesse toda a ira do trânsito, da garoa gelada aos nove graus na segunda de manhã, um poema tão original como esse cara que está vendendo pizza agora às nove horas da noite num "carro da pizza". 
Flor, um dia vou fazer um poema que vai falar até das tuas sardas me sorrindo sob o sol de Salvador.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

A natureza dos meus olhos


Mais um roteiro começa a ser desenhado pelas nossas vontades, pelas buscas no google maps, pelos e-mails enviados, pelos preços avaliados, a cada busca surgem histórias, alegrias de nossas viagens, lembranças de pôr do sol, de nossas comemorações diárias. Quantas alegrias regadas a acarajé com cerveja na pracinha do bairro, de mãos dadas, de abraço dado, quantas idas à academia, e todo dia é uma novidade para dividir, quanto tempo de silêncio dividido na biblioteca na qual os funcionários já nos conhecem, quantos chocolates ( e até flores) partilhados para que o cansaço nunca ofusque nossa alegria diária, tantas vezes fechamos os olhos depois do cansaço que a leitura ininterrupta comove em nossas vistas, e cada vez mais, enxergamos as cercas. 
O mundo é uma coisa tão maluca, eu não sei dizer,mas há muito força na nossa crença, enxergar nossa própria fragilidade, questionar a dança dos dias, ir à feira, comprar sapatos, separar um tempo para te ler poemas.
Essa nossa força me faz ser gigante.Vivo simples, não aspiro desafios de acumulação como nossos pares, vivo simples, quero tempo, o tempo de te ver, te ver e reparar nos cachos bonitos do seu cabelo, reparar nas suas escolhas lexicais, nas suas sobrancelhas, no calor de sua respiração antes de você dormir, também somos parte de uma teia de afetos, somos filhas, irmãs, somos pessoas que ocupam um lugar,uma função, nem tudo funciona como a função prevê, não sermos máquinas nos rende muitas lágrimas, muitos medos, muita dúvida na lida diária com tanta gente, o poeta disse " a injustiça não se resolve",mas a monja Cohen tem me ajudado a diminuir vaidade que há em mim. 
Temos reservado tempo, são tardes lindas, onde a luz da janela da biblioteca incide em linha diagonal na mesa de madeira silenciosa que mobília a sala limpa. Esse tempo nos aproxima, caminhamos. Pelas sintaxes gordurosas de enfadonhos teóricos ou pela beleza imponente de escritores brilhantes, cada um deles, para o deleite dos nossos olhos ou para desespero de nosso raciocínio, move alguma coisa em nós, destrói alvenarias de sangue, do sangue de que se fez a primeira casa da cidade. 
Eu tenho alegria de saber da nossa vontade junta, eu sei tão pouco, a minha alegria de saber é imensa,não é um castigo estudar, não é feio passar horas tentando encontrar entendimento, no fundo esse foi o luxo que eu sempre quis, O luxo de ter tempo para pensar, quando olho ao redor vejo homens e mulheres que não perguntam, seguem a lida diária, sem o Esteves da padaria, talvez não percebam as teias de concreto que coloca cada um numa jaula, quem sabe sintam o fruto sem lhe nomear o sabor, mas o fruto está cada vez mais desnutrido, a sanha torta do querer  muitas vezes nos põe em aflição, ânsia desordenada de querer um cessar do exército de homens maus , esses que aumentaram a vida do pobre junto ao ponto e fizeram subir 60 centavos o preço do café da padaria.
Mas é na luta linda e boa para barrar minha própria ignorância, para fazer domar essa minha burra vaidade, na luta para fazer caber a vigem dentro do orçamento, é nessa luta limpa, sã e boa que eu percebo os milagres. Milagre vem de Do Latim MIRACULUS, “causa de espanto, admiração”, de MIRARE, “olhar com espanto”, de MIRUS, “maravilhoso”. O aconchego da tua voz, na aula sobre estilística descobri que persona,vem de per son, pelo som, é que é marca de intimidade reconhecer o que entre todos nós nos diferencia, a voz, marca de pessoalidade. A sua voz é uma casa que eu quero morar,Flor. Pequenos e escandalosos encantamentos me tomam os olhos e os braços, quero na intimidade nossa dizer com todo o meu corpo, som e força do milagre que é existir na tua presença.
A tua presença,morena. A tua presença morena a embalar os meus verbos de força e profunda doçura bruta, como beijos de desjejum. Nosso Tudo é força,Flor.


domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro

Você sabe que dezembro não é o meu mês preferido, eu sei que também não é o seu. Embora eu adore aquelas plantas de folhas vermelhas que enfeitam as árvores de algumas avenidas da cidade, no mais dezembro contabiliza afetos de sangue e tempo e isso é meio ridículo, há muitas coisas com as quais eu não sei lidar, dezembro talvez seja uma delas. Estar com você é sobretudo esquecer de datas, gosto de nossos silêncios juntos, de nossas palavras também. Que esse ano a intensidade de nosso querer seja bonita como é, porque o nosso encontro de sorriso é um presente nessa passagem nossa aqui nesse espaço e tempo. Eu gosto do itinerário de ir até sua casa e de sua casa também, gosto do verde que me recebe antes de você, é sempre bonito. Passageiros cansados e suados de suas rotinas desembarcam abrupta e apressadamente nos pontos de ônibus, enquanto eu vejo o itinerário que te leva à escola, as ladeiras que foram estrada de seus primeiros passos longe de casa, a rua do colégio em que você viveu seus primeiros amores, a loja de doces perto da sua casa, as ruas que foram crescendo junto com você. Gosto também de observar seu altar literário, os livros que te fazem a cabeça, seus mil cremes para cabelo, sua pasta de dente que sempre está longe do lavabo, os chinelos brancos, a roupa de dormir e a escova de dente que você me empresta, e também a brisa que entra pela janela do seu quarto pela manhã. Gosto de atenta e silenciosamente ver todas as coisas que compõem você, dentro de sua casa isso é evidente,porque tudo é decisão sua: o lugar onde fica a canela, o açúcar, a farinha sempre longe, porque não é sempre que se come farinha na sua casa, salvo exceções em que eu apareça,seus inúmeros potes plástico que guardam temperos que transformas qualquer pedaço de frango na melhor coisa do mundo, seus tons azuis espalhados pela pele,capa de livro, colares, travesseiros, seu quadro bonito lembrando a cidade que te encantou pelo calor e luz.
Janeiro começou com um sol daqueles das praias cearenses, começou com a sua temperatura preferida, eu voltei para casa hoje celebrando silenciosamente a natureza do nosso corpo, o encantamento do nosso encontro, que tenhamos sempre e sempre saúde no corpo e na palavra para reparar, mesmo no meio do caos (e caos há e muito ao redor) que temos uma à outra e que nossa vontade converge numa poesia de sol, como fevereiro, como sua festa pagã que põe o mundo em festa. 
Te Tudo,Flor.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Um útero não é uma boa metonímia

Um corpo, um útero não precisa carregar um filho. Um útero e uma mulher em punhos. Acordada às 6:00 da manhã, corpo já vestido com a roupa de trabalhar, o corpo caminha lúcido para a lida da vida reta, atravessa uma porta,dois portões, duas catracas, de novo dois portões e uma porta, assina o ponto, a caneta bic azul soma mais um dia num papel sujo que não diz da dona do corpo. O corpo que caminha lúcido quer antes a dança que o passo adestrado, o corpo molhado entre as pernas espera a chegada da praia, chegado ao mar, o corpo é só radiância. Aos encontros das conversas das mulheres que fiam cabelos de filhas e rezam a ladainha dos maridos, esse corpo silencia e respeita, respeita com o silêncio e a solidariedade de quem também é corpo. A dança de cada corpo quando harmônica com cada grito sabe da diferença de quem habita cada espaço de carne. Os punhos de uma mulher não estão no útero, estão no fiar intenso de suas próprias histórias, no sangue de tanta gente que morreu pra dizer que a mulher pode, a mulher pode, a mulher fode, a mulher quer foder. O corpo da mulher não é um metafísica pagã criada por uma palavra masculina, nosso sangue escorre, como nosso gozo escorre, uma mulher tem tesão , uma mulher tem desejo, uma mulher pode tudo,um mulher pode querer ser toda,todinha de outra mulher.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

À mãe sem mãe

Ela me devora qualquer esperança de entendimento, porque comigo ela se mostra de verdade, e às vezes eu vejo um açude de rancor, muita ingratidão represada, mas quando sua ira arrebenta nunca estoura a barragem que a prende, não, isso não, ela  leva umas cercas vivas onde eu criava minhas mudas verdes de alguma esperança diária. Ela vai adoecendo de tristeza, enquanto chacoalha torrentes para arrastar minhas cercas, ainda que verdes são tão frágeis, tão cansadas desses arames que a represa dela me empurra, tem dia que desce rio abaixo uma bola de arame e as flores, que eu cuido tão diariamente e com tanto zelo,embotam, amassam o visgo e perde pétala. Ela ouve de todos as piores coisas, a falta de ética, a mentira, mesquinhez mais atroz, mas de mim, nada pode ser dito que não seja amém.
E assim vai se perdendo de novo o que foi para sempre pisado, as grandes dentadas que ela apertou na minha alma chega inflamam quando a represa anche. Essa semana mesmo minha carne tem mais dores que vida de tanto que ela fere, porque eu ainda acreditava no amor, mesmo quando ela desfez, ela cria umas correntes nos meus tornozelos, mas eu sei como quebra, é que a cada separação eu fico sem um pé, mas os tornozelos estão inchados de novo, eu tenho medo de salvar um  e perder meu corpo que levei mais de duas décadas para torná-lo unidade fora das correntes. 
Para mim, que sou irresponsavelmente de amor, é mundo doído quando a linguagem falha, quando a mesquinhez se infiltra e cresce uma nódoa podre nos panos que estavam quarando tão bem, nosso laço tava quarando, mas nesse sol de São Paulo é difícil de limpar, ela é triste por mim, eu sinto a espera de mais de metade de um século nas suas mãos, eu não quero magoá-la como todos os outros, sempre sofri calada desde a perda do meu pé, depois que arranquei a primeira corrente. Mas fui chorar num outro endereço. 
De novo, a mesma ameça da ausência, como se capitaliza fácil as relações de amor,meu deus. De quantas mágoas se faz uma filha? É feio como a tentativa de ser minimamente ética pode derrubar uma casa, desmascarar uma família inteira. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

céu

Esse semestre foi atarefado, tarefa era  nome que me lembrava terra, pai sempre falava em tarefa de terra, nunca soube direito a extensão disso,mas sei que envolvia valores, o semestre atarefado também envolve, ter a barriga cheia pra poder sonhar é importante. Mas mais, eu não quero ser a velhinha do filme que teve seu teto roubado. No último ano a responsabilidade do teto todo meu caiu nos meus ombros como uma bigorna cai na cabeça dos personagens de desenho animado. Quando eu assisti Amor pela primeira vez eu chorei, porque refleti sobre o que eu já sabia, das limitações do corpo, o desespero do amor que tem sua casa/corpo ruindo. Filme duro, filme de amor também, não desse ocidental e reproduzido, mas de outro, molecular, orgânico, que tem corpo, que cai , que tem rugas lindas e álbum de fotografia. 
A velhice pode ser linda,a velhice é agora. Só existe o tempo da língua sentindo o cuspe, a fruta, a água, só existe o cheiro de sabão em pó na coberta recém lavada, de carambola madura nas bacias que vendem na feira, só existe o tom indefinível do laranja do céu de hoje, só existe o barulho que escutamos boiando no mar,só existe a pele macia e quente de dentro das coxas de quem se deseja. Essa velhice é a velhice que eu quero, o caminho é todo dia, é todo gesto, é a tentativa de beber mais água de coco, de colocar gengibre na nossa comida, de ter mais sabedoria que letramento.
Essa alegria que vem atoa e nos cobre com laranja, com vermelho pôr do sol, de azul tinindo o céu, de neblina, chuva torrencial e sol no mesmo dia. 
O teto virá sem que sejamos corrompidas por esse tempo mesquinho que nos cerca, virá com as flores que nos aparecem quando começamos a reparar nelas, como as comidinhas que gostamos, e que agora multiplicam-se os pontos que as ofertam pela cidade. Virá sem que abandonemos amigos, sem que esqueçamos que mais vale ter olhos ternos e doces, porque é preciso tempo para que sejamos mais gente que valor/lucro/produção, que às vezes , aquele chiclete que demos ao menino que queria vender coisas no farol é muito mais importante do que uma aula que preparamos sobre sintaxe,Saramago ou Clarice. As coisas boas já são, são os desejos de nossas mãos dadas abrindo meses,anos, abrindo envelopes colados com tenaz e escritos com caneta vermelha e sobrenome nosso.
Flor, eu vi o céu,viver é bonito , te ouvir me dá tesão .
Observação:mesmo que você cante aquela música detestável do Raimundos.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Calor.

9 º C em São Paulo e as flores roxas sorriem rijas como meus mamilos quando encontram sua língua. O frio que congela minhas mãos e pés traz uma luz mais funda e dura no cimento de velhas calçadas da cidade, calçadas verdes de musgo e duras de lembranças esquecidas, quantos amores começados em beijos gelados de chope nas calçados e bares dos bairros boêmios. Esse frio me convida para dentro da sua saia, a meia calça preta escondendo suas coxas roliças acendem desejos e atiça a urgência das minhas mãos, a cidade hoje ficou coberta de homens e mulheres de tons graves, eu pensei no casaco que você possivelmente usou hoje, tentei adivinhar a cor, a textura e seu cheiro doce encontrando a gola do casaco onde seus cachos recém cortados exibem um brilho que dança junto com seus dentes. A cidade tomou um banho de luz fria hoje e eu tenho 90 redações para corrigir, mais de 4 números para ligar e uma bibliografia pra ler, mas nada disso é tão pleno, largo e fundo quanto esse tesão aceso ao mais simples vento que roça meu pescoço trazendo lembrança de teu hálito.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A doçura de ver os dias

                Sei que não estamos em tempo de flores e não desvio os olhos da barbárie dos jornais, das falas ainda verdes de tantos meninos e meninas que arrotam a loucura azeda dos discursos de ódio, eu ouço, eu vejo e no mais, não sei ainda se bem ou mal, silencio.
               Apesar dessa dança vertiginosa do mundo, desse esperar de explosões, eu vejo a iluminação das coisas que são imensamente importantes. É imensamente importante sentir o frescor do dia quando se acorda cedo. Acordar e fazer comida  e comer sentindo em cada poro sabor e cheiro, o azeite soando na panela quente, o pão torrando , o cheiro do café inundando toda a cozinha, estar nua e andar pela cozinha, partir laranjas, abrir janelas, abrir potes de açúcar, abrir gavetas de calcinha, abraçar o corpo que se quer e sentir o abraço e desejar estar onde se está, perceber o teto seu , o corpo respondendo a cada insinuação dos gestos, sentir a tenacidade da carne, a fome do corpo exausto de dançar, ouvir o batuque do samba numa praça centenária, sentir o cheiro de quem acabou de nascer e já tem palavra e sentido, já tem fome, já toma conta de outras vidas.
             Assistir aos amigos e ser amiga , fortificar os laços nesse mundo bruto, nesse mundo magnífico que é nascimento todo dia. É graça o corpo, é milagre tanta precisão, é mágico aprender. Como eu apalpo essas manhãs tão azuis? É imensamente importante sentir a água do chuveiro sobre os cabelos e perfumar-se do perfume que se quer, dormir e acordar e amanhã ter vontade de ir à Colômbia ou fazer um curso de cinema inútil, ler literatura e ficar obcecada por aquelas 4 páginas que faltam para terminar, estudar a década de sessenta e os movimentos feministas e dormir às duas horas de um domingo escandalosamente anil , dormir porque um sol acabou de nascer entre suas pernas, dormir porque não é sono , é nuvem...É também imensamente importante ir à feira e comprar frutas e coentro, coentro é imensamente importante, mesmo quando nos encantamos com melões, nunca olhados antes, e o esqueçamos, coentro é importante. Também não poderia deixar de ser citado o jeito de dormir, jeito de dormir é imensamente importante, assim como matar muriçocas , sobretudo a muriçoca que lhe perturbou. É imensamente importante as pequenas grandes coisas, como : comprar gelatinas  que sua namorada adora, imensamente importante cuidar para que a vaidade não deixe que essas coisas percam seu lugar de imensamente importantes, poderia também dizer da importância das letras, sobretudo as que falam dos desejos, 
         As letras impressas nas passagens só não são mais importantes do que as passagens, são também da maior importância reservas de pousadas, a compra no supermercado de uma cidade nunca vista antes são da maior importância, é preferível que você não leve a chave do guarda-volume embora,como também é importante a comida numa mesa nova é a vontade de aprender uma nova receita como joelho de porco por exemplo ,mesmo que suas panelas não sejam de uma cozinha industrial, como é da maior importância perceber o laranja do céu antes da sete da manhã.
          É da maior importância que voltemos para aquela parte da entrevista que o que a Simone B. falou era essencial para o que viria depois, mas cochilamos, é da maior importância que tenhamos sempre milho de pipoca e milho verde em conserva. 
Viver é da maior importância.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

De aniversário.

                    Flor, é seu aniversário e eu fiquei toda querendo escrever umas coisas bonitas para dizer o quanto estou feliz por estar  pertinho, juntinho de você. Preta, você me emociona o tempo todo , você vem e meus sentidos todos seguem seus movimentos, estou até querendo fazer fotografia só pra um dia eu fazer uma máquina alcançar o que minhas retinas transbordam , mas numa fotografia não cabe todas as suas cores,não cabe os ângulos generosos que seus movimentos me dão.
              Esse ano será um ano importante, seu desejo vai criar corpus, forma e na forma da academia será feita a  tua vontade. Preta, essa força toda é tão bonita, gosto de te ver assim, que nem ontem, você chegou fascinada por aquele livro , lendo as páginas , dividindo suas descobertas, suas inquietações, esse tesão intelectual tem uma força de cio ,Flor, e de mais um modo você me excita, aguardar a água ferver para fazer nosso café já me deixa sentindo seu cheiro, já respiro mais cadentemente na sua espera. Hoje fiquei vendo nossas fotos e vi o quanto mudamos o cabelo, os cenários, é bonito ver o mundo na sua companhia, é sentir o mundo, sentir no sentido mais bruto e doce. Eu tudo você, eu desejo você, eu desejo que esse ano seja lindo, seja doce, seja bonito, que os orixás, a energia das pedras de São Tomé das Letras, as rezas, os cantos, que toda luz , que tudo que for bom esteja com você fazendo teus dias gostosos e brilhantes que nem glitter,
           Flor, feliz todo dia, que a vida seja sempre linda como um pôr de sol visto de Itapuã e doce que nem saputi. Eu te tudo.
Sua.
Dilma.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A intimidade dos corpos

              São Tomé das Letras foi nossa viagem mais dengosa. Flor é uma luz alegre e um incêndio que o corpo quer. Os nossos corpos se entendem, se ajeitam ,se desejam, meu corpo por encanto do dela caiu na sesta, adormeci com a mão morna de seu tato macio, todas as pedras da cidade brilhavam , de certo que era para os olhos de Flor, quem ficaria indiferente àquele brilho em Flor? Pelos bares e lojinhas multiplicavam-se cores e saudações, os pássaros em rebuliço faziam canto pra Flor. Se eu soubesse também cantaria , também desabrochava em cores só para seu bem.
          Nossas mãos passearam juntas e não sentiram medo do ódio, tão alheio à nossa essência. Vimos juntas um novo tom de verde, um novo jeito de desaguar. O silêncio das tarde, naquele canto de mundo em cima de um pedra, era cortado pela nossa leitura, eu escrevi de um jeito inédito um texto que Flor me deu, as leituras foram ardentes e dengosas. Seus olhos amoleciam e cresciam como crescem as flores miúdas e cheias de cor. No silêncio da rua nosso silêncio conversava a cumplicidade do querer, prolongava-se pelas tardes molhadas os nossos passos juntos, prolongava-se o nosso espreguiçar, a nossa voz em uníssono de uma paz descansada de deveres. Os doces de São Tomé eram a afetividade dissolvida em leite e açúcar , a cachaça curtida nos sabores de magos e duendes marcavam de noz moscada e cravo a nossa língua.
       O Vale das Borboletas esperava em água e céu a chegada de Flor, e até o sol a procurou entre os galhos altos que escondiam as pedras. Flor, dada à natureza, ganhou luz e água das cachoeiras de Minas. O doce de leite , o cheiro de mato, o visgo do verde se jogava aos seus pés, eu me perdia de ver sua presença enchendo o mundo de luz, eu me emocionava com meus olhos cheios de sua imagem, transbordando nas bordas a doçura de água de cachoeira, nosso calor batizado nas águas doces e brutas, na força das pedras, nossa fita do Senhor do Bonfim batizada primeira nas águas do Rio Vermelho agora também da luz das pedras é conhecida.
      Sua alegria anuncia o carnaval, inaugura todo dia um prazer que só a intimidade dos corpos sabe desnudar. A intimidade dos corpos é esse amolecimento dos olhos , esse despertar pra um mundo tão íntimo que a palavra é ainda saliva, quando esmorecendo um músculo uma dança se inicia, quando o  nosso  quando desabrocha junto, rente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Mas não subiu às estrelas, se à terra pertencia"
           Quem leu Memorial do Convento certamente reconhece a fundura desse chamamento. Invocando a vontade que sustenta as estrelas, Saramago faz rebuliço no peito de quem se entrega à leitura além do símbolo, quem também  pinga seu sangue fazendo cruz no peito de Sete-Sóis.

          O que se quer tanto com tanto conto? É tanto papel para preencher que há quem estando nu se amedronte diante do silêncio potente que o corpo é. Os olhos dela de manhã são dois infinitos de fruta pequena e doce, o corpo é a força onde suas tempestades todas se assentam, quando meus dedos passaram sobre e entre seus cabelos, agora curtos, eu vi e quis que minha mão,velha,  sinta a mudança de seus cabelos, de corte, de cor, tingidos pelo tempo, pelas longas horas estudando apaixonadamente essas cismas que a faz  precisa ,afiada e dona da linguagem, com batons e lenços e anéis e colares. A cidade fica pequena perto da sede de sereia que faz e fisga canto.
         A cidade toda resplandece nesse outono inconstante, ela ergue, com um sorriso de sono, uma bandeira à dança dos corpos que se dão bom dias fundos, como uma raiz revirada depois da chuva, como o cheiro de mato quando caem árvores na sua rua.
          Celebrada a linguagem, eu invoco silêncios para tecer uma cortina de búzios, conchas, um lençol com a vibração das cores dos corais, uma rede tecida com as histórias de ilhas desconhecidas, eu arrasto uma tarrafa de peixes prateados que são nossos retratos pelas ilhas que desconhecíamos, eu chamo Noel,Cartola e Pixinguinha , eu convoco tambores para chamar os olhos dela para mim.
         Eu fabrico sete-sóis e uma nuvem que faz voar .

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando eu era pequena.

Eu queria mesmo era aprender a nadar na barragem onde só os meninos podiam ir no final do dia, as meninas só iam de manhã pra ajudar as mães a lavarem os pratos, mas meu irmão me levou e eu aprendi com ele a nadar, isso depois de tomar muita água e puxar forte meu fôlego, aprendi também a pescar ,mas eu preferia ir à noite , porque me atraia mais a lua do que os peixes,mas meninas no rio à noite pouco se via, mas ele me levou mesmo assim, mesmo ficando com um bico enorme quando seus amigos davam em cima de mim.
Quando eu era criança eu queria matar passarinho que nem ele, mas errava as bala de badogue e ele ria.
Fui então pegando gosto por fabricar balas de barro do tangue de pai, e das balas fiz fazendas e das panelas de mãe fiz uma bateira pra tocar com uma banda imaginária que nunca tive, fiz das tampas da panela pregadas nas estacas de segurar o varal um volante de um carro, e um dia com Diguinho pendurado em minhas costas quebrei o muro feito mais de terra do que de cimento ,assim com muitos feijões hoje tem mais caldo do que grão, o tijolo quebrou e caiu na cabeça dele. 
Vivemos assim a infância descobrindo o amor nas tensões de pregos enfiados nos peitos do pé e no silêncio da lua, Arlindo me ensinou muito de adulto sendo criança,quando hoje eu sei nadar por essas alegorias, descansando numa pedra submersa no rio eu vi o céu de um jeito que quem num sabe ir até num vê. 
Hoje ele tem filho que diz meu nome e minha infância revive nessas arapucas que ele ensinou o menino a fazer nas últimas férias.
Quando eu era pequena eu via pouco tv, porque eu queria mesmo era poder brincar embaixo da carroça de pai, eu queria aprender a andar de bicicleta naquela monark vermelha que quase me aleija os dedos.
Eu era do mato.


domingo, 16 de agosto de 2015

"Abraçar e agradecer"

             Agosto todo amarelo, nome assonante como minhas palavras preferidas. Flores amarelas com gotinhas vermelhas vieram alegres das mãos dela , foi presente. A imensidão do mês de agosto, que tanto irrita paulistanos apressados, não se precipita na contagem dos dias,mas alonga as coisas bonitas dentro do peito. Sábado à tarde, deitada naquela colcha de retalho, no silêncio daquela grama do parque, ela achou um cabelo branco na minha cabeça, bem na frente, eu sorri sem pressa, porque eu estou contemplativa, eu estou. Vi notícias tristes na televisão e fiquei com o peito apertado, tomei vinho bordô barato e comi torrada com doce de leite, conversamos e no meio das palavras e dos rostos, senti a harmonia que o tempo engrossa nos afetos, aquele homem barbudo e menino veio para nos ver e falar e ouvir, a cidade de São Paulo assiste aos vincos no meu rosto e aos meus olhos amolecidos das coisas bonitas que a vida dá.               
                   Esse ano tenho aprendido muito de mim mesma, do meu apego ao meu corpo, onde sou,de onde  falo, mas na calmaria que não veio sem dor, vejo milagrar orvalhos de mulher. Vi um homem bruto chorar soluços desmantelados que chamaram meus ouvidos atônitos para a confusão do mundo.  Senti a calmaria em minha unidade, e senti a modéstia e a generosidade de não querer parir, é egoísmo ser mãe. Eu comeria minha cria com os olhos, esses mesmos que veem o mundo sem cercas e arames, essa coisa bruta de parir é um magnanimidade que foi apodrecida pelos estatutos ,pelo sangue nos olhos que todos nós carregamos, deve ser ,também, dessa truculência que Clarice fala.           
               Eu quero mesmo uma simplicidade vagabunda que não sabe o nome das coisas e por isso,inventa-as mais bonitas, mais coloridas. Eu divido meu silêncio e minha confusão com ela, ela é uma mulher que invoca um mar no meu peito, água querendo fluir , fruir os mistérios dos seus olhinhos miúdos que brilham e gargalham risadas de dendê e pimenta. Seu corpo : visgo, carne, relâmpago e desejo, fúria e febre de mulher, de vestido , de rendeiras costurando contos do mar, seu corpo é. Dividir as minhas frases que ficam querendo fim, umas nem tem, ela sabe, conversas bonitas que se fazem às vezes com a respiração e os olhos rentes: pupilas acesas em encontro, tudo isso é uma coisa que é linda. A comida, o sal, o café, o alho, a escolha da rota do acarajé ou das férias, o livro enfeitado com as letras que me escrevem cartas.      
                 É dela meus olhos, meu desejo , minhas cartas ridículas com palavras e desenhos esdrúxulos. É para ela que eu conto o medo da loucura legitimada pelos imóveis, pelos móveis. A vida simples nas cidades calmas e quentes, os becos, as vielas, os P.Fs dos bares de tantas periferias, os sambas de roda do centro, o livro novo do autor desconhecido, a palavra bruta dos homens de deus, a cerveja, o pesar das notícias de violência, a compaixão sentida pelos alunos, o medo das sementes do mal, a alegria da comida gostosa, do encontro amigo, a secura da academia, com ela divido o mundo visto, o espaço do guarda roupa, as dúvidas, o medo, a mansidão, a preguiça, o gozo.     
          Meu intento de palavra e corpo é dela.Flor, obrigada por pela estar, tua presença é presente todo dia.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Bora ser feliz?!


          Dias rasgados de sol, mesmo quando esfriou e no jornal deu que era a tarde mais fria do ano. De mãos agarradas no teu seio e na tua mão, adormeci sonhando desejo de amêndoas com avelã, respirando esse cheiro de coisa de comer que seu corpo emana. Um mar nordestino nos espera, as mesas e cadeiras e comidas esperam nossos sorrisos bobos, nosso silêncio diante do pôr do sol, diante das águas ineditamente vistas aos nossos olhos. Na gaveta , protetor solar, creme de pentear, sabonete líquido, cartão de memória, vestidos , calcinhas novas, sorrisos esperando a cidade nova, o itinerário do transporte público que desconhecemos, as ruas anunciadas pelo google mapas, a paz de teu sorriso Iemanjá dissolvendo qualquer coisa feia. Já antevejo teu corpo naquele vestido branco que tu deslumbrou num dia de samba, branco contrastando com tua pele queimada de sal e sol, minha boca já é alegria de te pensar dona dos meus olhos , perdidos no encanto de tua doçura bruta,eles brincam às vezes apartados do que te sai da boca, escravos da harmonia que teu corpo é,veem tontos de fruição e mistério tua dança no mundo.
             Viver atenta aos teus passos no mundo, teus passos de quem carrega uma lua vermelha , assistir à sua luz dentro do corpo que faz ser quem é, escolher as cores e os panos que te cobrem as curvas, que escondem o que meus olhos gozam sob a luz do sol de manhã, entrando pela janela. Entrando pela janela ,descaradamente, o sol imperava afazeres domésticos, compras em açougues lotados ,em pontos de ônibus, em pontos de trabalho, enquanto dissolvidas no cansaço dos nossos cheiros nossos corpos preguiçosos: pernas enlaçadas, lençóis no chão, enquanto nosso tento tendia pela celebração das bocas, ungidas de sim, dizendo primaveras lilases nos ouvidos do mundo.
              Minha Preta, na linguagem num cabe o pedaço de mundo bonito que nossos olhos mergulham, signos ordenados assim, entre vírgulas e pontos não dizem do dengo de manhã, da manha nossa de cada dia, nem do nosso encontro.
             Nem Barthes nem Lacan, Manoel de Barros falaria melhor de nós, fosse preciso açucenaríamos um paralelepípedo, mas faremos mais, colocaremos uma rede verde para nossa varanda balançar nossa preguiça domingueira, nosso café preto de tarde, nosso encontro.
            Um dia na nossa pousada no cu do mundo, deixaremos uma parede para o Manoel de Barros encantar outros casais, nela ficará assim  "Esqueçam o que Lacan disse, Açucenem-se"


quinta-feira, 25 de junho de 2015

infinitivo.

Sentir com a língua seu pé bem feito e macio, contornar com a boca as curvas macias da tua perna, deslizar meus desejos nos teus seios duros e volumosos, nos teus mamilos esfregar minha língua, febre e gozo anunciado de teu sexo, tirar sua meia sete oitavos com a surpresa de um viajante que encontra uma ilha perdida e sente a vaidade dos olhos nus numa  paisagem inédita que a retina não esquece, desenhar com meus cílios dançando sobre suas costas as intenções de quem, nua ,ver um mar e tem nos braços imperativos de nadar, nadar até a água acalmar os músculos.Entrelaçar meus olhos e meus dedos nas nuances ardentes de teu corpo todo e fazer do meu corpo encontro, na força acolchoada das nossas pernas unindo (nuas) a urgência que suas unhas cravadas nas minhas costas e e meus dedos enredados em seus cabelos exigem. Descansar minha cabeça na sua coxa e recuperar o fôlego sentindo o cheiro morno do teu suor na cadência abrasiva de teu corpo depois do gozo, sorrir mole lânguida e sentir o sal do meu próprio suor me saudar a língua que encontrou uma mar dentro de teu mundo-mulher que encontrou  força e verso que nunca serão ditos porque é língua de sangue e nervo, é língua que virtualidade nenhuma alcançará.Procurar ,percorrendo sua pele , seu abraço e descansar nos seus seios mornos.
Dormir com o gosto do teu sexo na língua, com o perfume quente dos teus cabelos filtrando rosas para o meu sono, abraçar teu corpo sonolento do cansaço da dança que o corpo fez.
Dormir e acordar tua.

domingo, 31 de maio de 2015

frigideira azul.

                       
             Nunca use coisa para começar um texto, é o que eu sempre digo para as turmas de ensino médio, é importante precisar o que se quer dizer, insisto. Pois bem, é sobre as  coisas bonitas que ela me faz que eu queria dizer, e nunca será preciso (adjetivo e verbo) porque tem jogadas inacreditáveis dos meus sentidos, que fugindo à regra do óbvio ,veem na frigideira não a utilidade prática de fritar alimentos, mas um azul que se destaca lindo e envolvente com a pele morena dela, uma pele morena que inspira todos os dengos do mundo. Há detalhes de alegria no jeito que ela sorri de achar uma poesia que se chama "glutamato monossódico" , há detalhes de alegria quando ela toma minha palavra antes que essa vire som e manda a perversidade de um homem "se fuder", do jeito bruto e revoltado que só a doçura dela sabe responder, porque não é uma doçura plácida de adultos resignados é a doçura de uma criança que quer o primeiro pedaço do bolo de chocolate com recheio de cereja, e tem toda fome que só quem deseja ardentemente sabe da urgência. 
         O sono dela me prende os braços e eu insisto num sono que eu não tenho, porque eu durmo pouco, e vê-la dormir é menos vê-la que sabê-la, eu fico no silêncio do quarto ,escutando o barulho de mar que seu dorso moreno invoca, um dorso que impera nos meus sentidos, por onde eu passeio poros e dentes. Os ombros macios que são equilíbrio de minhas mãos tontas do gozo que o corpo quis e teve.
          Fora do quarto, um turbilhão de afazeres, descartáveis e necessários, nos esperam : o preço pelo teto, pela luz, pelo transporte, a logística, a moradia , a casa grande que num é minha. Nessas horas em que o plano de cigana me salta aos olhos, nessas horas, ela entende meu silêncio, eu sei que ela sabe que eu queria prolongar a noite à luz do dia.
           Ter um mar numa manhã de frio parece mentira. Ir na contramão do óbvio é coisa que acarinhada pelos olhos dela vira dança. Porque eu quero descansar da festa do seu corpo achando esses detalhes que sua presença traz, suas pernas nuas me contam de cheiros de pimenta e flor,de força e sal. Mais nu que meu corpo são meus olhos quando coberta de luz ela diz sim com a língua e com o olhar.
          Meus sentidos vivem, vivem,vivem alegrias ora silenciosas , ora escandalosas que meu corpo ganha, às vezes dormindo, às vezes túmido de sim explodindo água.


            Tua,Flor
        
         

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Porque.

              É porque com uns dias a mais eu vou ter tempo de comprar umas meias novas para vestir embaixo de meus vestidos coloridos, vou também finalmente achar aquele trecho de Memorial do Convento pra ler para você, vou procurar os cartões de memória de minha câmera e fotografar você vestida como uma personagem do Tarantino, do Almódovar, vou ficar atoamente perdida nessas suas sardas engraçadas, tenho uns silêncios longos carecendo desse seu jeito de abraçar que parece me apartar das coisas ruins.
             Eu prefiro silêncio à repetição dos números para comer, para vestir, para morar, para medir o sangue, a água. A agulha sempre pronta a apontar erro na contagem da dor.
              É porque com uns dias de folga , podemos ir àqueles sebos da praça João Mendes e encontrar gramáticas da década de 20, prefácios com dedicatórias usando mesóclises , e até marcadores de textos antigos contando histórias de casais apaixonados jurando amor e melindres dentro dos livros agora amarelos de tanto tempo passando do lado de fora da rua.
                É porque com mais tempo livre para estarmos de olhos irrigados da doçura que esses encontros dão, talvez dê tempo de finalmente assistirmos ao filme de Fellini,
              Na hipérbole das cores translúcidas das borboletas pouco vistas, no copo de vidro transparente e vagabundo com o gole de café preto que eu te levo de manhã para te acordar com minhas línguas e meus olhos tomados pelos seus olhos miúdos ainda sonolentos, na intenção dos gestos querendo encontro, na dilatação macia de teus músculos dizendo sim, na doçura das tuas mãos me invadindo a nuca, esses encontros  sou eu dada à teu desejo intenso e contínuo.
           Se eu pudesse fundava um feriado hoje ainda para fazer o sol nascer a noite toda, pudesse, rasgava o livro de ponto, jogava fora  os boletos, os números, cessaria a  sintaxe frágil dos diálogos mal ditos e falava das paixões que alimentam as revoluções, pudesse, eu faria tudo para roubar você pra mim.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

De Cristo.

               Eu não sei como é ter um filho, eu sei que dói ver homens vestidos de preto matando meninos "pretos de tão pobres".  Eu sei que nas conversas nesse dia de sexta que feriadaram um assassinato e comungam a esperança na ressurreição , eu sei que ouvi de gente que tem dinheiro,tem o de comer e o onde morar ouvi planos para investir e fazer mais dinheiro e lamentaram a morte do filho do governador. De sangue ninguém falou, um menino morreu no Rio, um menino sempre morre na periferia, onde a polícia tão aclamada pelo povo quer número de presos de mortos e de homens pretos na estatística para fazer a segurança dos brancos que querem ganhar dinheiro.
          Como foi que essa mãe aleijada por balas do estado comeu comida nessa sexta feira santa? Um menino morto desse jeito cruel e perverso trouxe pesar nesse dia em que a morte faz feriado.
       Homens brancos e  de oratória bíblica estão querendo mais números e matarão antes do corpo as almas dos meninos aprisionados aos dezesseis.
      A limpeza nas mãos do que fazem as escolhas não escondeu de Blimunda  _ olhos saramaguianos de ver_ os vermes estourando em pus dentro de tantos homens.
      Como você que não sente mais pesar chegou a esse lugar de anestesia?Não te dói que um menino morra e que você pague a essa polícia para aleijar uma família? Por que teu nariz só sente cheiro de dinheiro?Você não vê o pus nos homens, o sangue de tantos meninos? 
          Hoje há pesar e dor pela morte de meninos e pela falta de almas sensíveis, há pesar pelos que encheram o bucho de comida, os sentidos de vinho e ordenaram que mais gente morra.

domingo, 22 de março de 2015

Estação.


           Os livros de literatura abandonados pela minha cama sofrem o desdém do meu humor avesso às leituras programadas e precisas, porque hoje eu quero os cabelos dela entre meus dedos, quero mais do que sua saia com cheiro de frutas doces, mais que suas presilhas abandonadas no lençol. Essa ausência que tomou o quarto todo sem espaço pra eu deitar,comer dormir faz de meus beijos pedidos exagerados de quem não quer findar o domingo sem festa.
          O corpo dela é onde eu quero morar, meu silêncio desesperado não que senão linguagem no calor da sua nuca, na quentura perfumada que as  coxas dela têm, é mais que dança quando juntas no movimento  de sins , na cadência das curvas, no deslizar da minha boca pelos seus braços pernas, é dança quando sua calcinha soando nota de sol maior encontra a pressa das minhas mãos desejosas de sua nudez, suas cores estampadas em pele e traço fazem do olhar um gozo precursor da festa que todo pedaço de pele seu encerra.
          As coisas mais bonitas que eu sei eu quero do melhor jeito que sejam também dela. Aprender o corpo dela é presente, é festa. Nos dias de calor, nos dias de frio ,nos dias de prova, nos dias de ir ao banco, nos dias de ir ao mercado, nos dias em que ela está aparece até arco-íris, mesmo que ninguém veja e pareça improvável ter cor em dia cinza, mesmo que o mundo nos roube tempo, quando ela vem o meu mundo fica todo florido.
         O tempo é uma Estação-Flor.
     

   

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Feliz todo dia.

                      Feliz Flor.
Moça pisciana bonita, feliz ano novo, feliz todo dia, feliz sapatos novos e vermelhos em liquidação,lançamentos do Von Trier, edições novas de coisas da Clarice, Feliz feriados em praias , pousadas, praças e bares pelo mundo,pela cidade,feliz artigo pronto, aulas lindas,livros do Foucault, Barthes , do Derrida ( um dia a gente vai entender o que esse cara disse rs, fé). Feliz noites e noites de ousadias porque sua carne é de carnaval, feliz vontades, feliz amor, feliz paixão, feliz vida na intensidade dos olhos, feliz feiras livres , feiras hippies, feliz cafés e capuccinos e bolos de limão. Feliz novos escritos sobre as mulheres, feliz pesquisa tão linda e pertinente que tu inicia, feliz teu corpo tão encontrado na alegria.
Feliz dias ensolarados e da sua cor preferida: azul. Feliz aniversário.
Com carinho e tesão dessa tua moça de leão .
Eu tudo você.