segunda-feira, 11 de abril de 2016

A doçura de ver os dias

                Sei que não estamos em tempo de flores e não desvio os olhos da barbárie dos jornais, das falas ainda verdes de tantos meninos e meninas que arrotam a loucura azeda dos discursos de ódio, eu ouço, eu vejo e no mais, não sei ainda se bem ou mal, silencio.
               Apesar dessa dança vertiginosa do mundo, desse esperar de explosões, eu vejo a iluminação das coisas que são imensamente importantes. É imensamente importante sentir o frescor do dia quando se acorda cedo. Acordar e fazer comida  e comer sentindo em cada poro sabor e cheiro, o azeite soando na panela quente, o pão torrando , o cheiro do café inundando toda a cozinha, estar nua e andar pela cozinha, partir laranjas, abrir janelas, abrir potes de açúcar, abrir gavetas de calcinha, abraçar o corpo que se quer e sentir o abraço e desejar estar onde se está, perceber o teto seu , o corpo respondendo a cada insinuação dos gestos, sentir a tenacidade da carne, a fome do corpo exausto de dançar, ouvir o batuque do samba numa praça centenária, sentir o cheiro de quem acabou de nascer e já tem palavra e sentido, já tem fome, já toma conta de outras vidas.
             Assistir aos amigos e ser amiga , fortificar os laços nesse mundo bruto, nesse mundo magnífico que é nascimento todo dia. É graça o corpo, é milagre tanta precisão, é mágico aprender. Como eu apalpo essas manhãs tão azuis? É imensamente importante sentir a água do chuveiro sobre os cabelos e perfumar-se do perfume que se quer, dormir e acordar e amanhã ter vontade de ir à Colômbia ou fazer um curso de cinema inútil, ler literatura e ficar obcecada por aquelas 4 páginas que faltam para terminar, estudar a década de sessenta e os movimentos feministas e dormir às duas horas de um domingo escandalosamente anil , dormir porque um sol acabou de nascer entre suas pernas, dormir porque não é sono , é nuvem...É também imensamente importante ir à feira e comprar frutas e coentro, coentro é imensamente importante, mesmo quando nos encantamos com melões, nunca olhados antes, e o esqueçamos, coentro é importante. Também não poderia deixar de ser citado o jeito de dormir, jeito de dormir é imensamente importante, assim como matar muriçocas , sobretudo a muriçoca que lhe perturbou. É imensamente importante as pequenas grandes coisas, como : comprar gelatinas  que sua namorada adora, imensamente importante cuidar para que a vaidade não deixe que essas coisas percam seu lugar de imensamente importantes, poderia também dizer da importância das letras, sobretudo as que falam dos desejos, 
         As letras impressas nas passagens só não são mais importantes do que as passagens, são também da maior importância reservas de pousadas, a compra no supermercado de uma cidade nunca vista antes são da maior importância, é preferível que você não leve a chave do guarda-volume embora,como também é importante a comida numa mesa nova é a vontade de aprender uma nova receita como joelho de porco por exemplo ,mesmo que suas panelas não sejam de uma cozinha industrial, como é da maior importância perceber o laranja do céu antes da sete da manhã.
          É da maior importância que voltemos para aquela parte da entrevista que o que a Simone B. falou era essencial para o que viria depois, mas cochilamos, é da maior importância que tenhamos sempre milho de pipoca e milho verde em conserva. 
Viver é da maior importância.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

De aniversário.

                    Flor, é seu aniversário e eu fiquei toda querendo escrever umas coisas bonitas para dizer o quanto estou feliz por estar  pertinho, juntinho de você. Preta, você me emociona o tempo todo , você vem e meus sentidos todos seguem seus movimentos, estou até querendo fazer fotografia só pra um dia eu fazer uma máquina alcançar o que minhas retinas transbordam , mas numa fotografia não cabe todas as suas cores,não cabe os ângulos generosos que seus movimentos me dão.
              Esse ano será um ano importante, seu desejo vai criar corpus, forma e na forma da academia será feita a  tua vontade. Preta, essa força toda é tão bonita, gosto de te ver assim, que nem ontem, você chegou fascinada por aquele livro , lendo as páginas , dividindo suas descobertas, suas inquietações, esse tesão intelectual tem uma força de cio ,Flor, e de mais um modo você me excita, aguardar a água ferver para fazer nosso café já me deixa sentindo seu cheiro, já respiro mais cadentemente na sua espera. Hoje fiquei vendo nossas fotos e vi o quanto mudamos o cabelo, os cenários, é bonito ver o mundo na sua companhia, é sentir o mundo, sentir no sentido mais bruto e doce. Eu tudo você, eu desejo você, eu desejo que esse ano seja lindo, seja doce, seja bonito, que os orixás, a energia das pedras de São Tomé das Letras, as rezas, os cantos, que toda luz , que tudo que for bom esteja com você fazendo teus dias gostosos e brilhantes que nem glitter,
           Flor, feliz todo dia, que a vida seja sempre linda como um pôr de sol visto de Itapuã e doce que nem saputi. Eu te tudo.
Sua.
Dilma.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

A intimidade dos corpos

              São Tomé das Letras foi nossa viagem mais dengosa. Flor é uma luz alegre e um incêndio que o corpo quer. Os nossos corpos se entendem, se ajeitam ,se desejam, meu corpo por encanto do dela caiu na sesta, adormeci com a mão morna de seu tato macio, todas as pedras da cidade brilhavam , de certo que era para os olhos de Flor, quem ficaria indiferente àquele brilho em Flor? Pelos bares e lojinhas multiplicavam-se cores e saudações, os pássaros em rebuliço faziam canto pra Flor. Se eu soubesse também cantaria , também desabrochava em cores só para seu bem.
          Nossas mãos passearam juntas e não sentiram medo do ódio, tão alheio à nossa essência. Vimos juntas um novo tom de verde, um novo jeito de desaguar. O silêncio das tarde, naquele canto de mundo em cima de um pedra, era cortado pela nossa leitura, eu escrevi de um jeito inédito um texto que Flor me deu, as leituras foram ardentes e dengosas. Seus olhos amoleciam e cresciam como crescem as flores miúdas e cheias de cor. No silêncio da rua nosso silêncio conversava a cumplicidade do querer, prolongava-se pelas tardes molhadas os nossos passos juntos, prolongava-se o nosso espreguiçar, a nossa voz em uníssono de uma paz descansada de deveres. Os doces de São Tomé eram a afetividade dissolvida em leite e açúcar , a cachaça curtida nos sabores de magos e duendes marcavam de noz moscada e cravo a nossa língua.
       O Vale das Borboletas esperava em água e céu a chegada de Flor, e até o sol a procurou entre os galhos altos que escondiam as pedras. Flor, dada à natureza, ganhou luz e água das cachoeiras de Minas. O doce de leite , o cheiro de mato, o visgo do verde se jogava aos seus pés, eu me perdia de ver sua presença enchendo o mundo de luz, eu me emocionava com meus olhos cheios de sua imagem, transbordando nas bordas a doçura de água de cachoeira, nosso calor batizado nas águas doces e brutas, na força das pedras, nossa fita do Senhor do Bonfim batizada primeira nas águas do Rio Vermelho agora também da luz das pedras é conhecida.
      Sua alegria anuncia o carnaval, inaugura todo dia um prazer que só a intimidade dos corpos sabe desnudar. A intimidade dos corpos é esse amolecimento dos olhos , esse despertar pra um mundo tão íntimo que a palavra é ainda saliva, quando esmorecendo um músculo uma dança se inicia, quando o  nosso  quando desabrocha junto, rente.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Mas não subiu às estrelas, se à terra pertencia"
           Quem leu Memorial do Convento certamente reconhece a fundura desse chamamento. Invocando a vontade que sustenta as estrelas, Saramago faz rebuliço no peito de quem se entrega à leitura além do símbolo, quem também  pinga seu sangue fazendo cruz no peito de Sete-Sóis.

          O que se quer tanto com tanto conto? É tanto papel para preencher que há quem estando nu se amedronte diante do silêncio potente que o corpo é. Os olhos dela de manhã são dois infinitos de fruta pequena e doce, o corpo é a força onde suas tempestades todas se assentam, quando meus dedos passaram sobre e entre seus cabelos, agora curtos, eu vi e quis que minha mão,velha,  sinta a mudança de seus cabelos, de corte, de cor, tingidos pelo tempo, pelas longas horas estudando apaixonadamente essas cismas que a faz  precisa ,afiada e dona da linguagem, com batons e lenços e anéis e colares. A cidade fica pequena perto da sede de sereia que faz e fisga canto.
         A cidade toda resplandece nesse outono inconstante, ela ergue, com um sorriso de sono, uma bandeira à dança dos corpos que se dão bom dias fundos, como uma raiz revirada depois da chuva, como o cheiro de mato quando caem árvores na sua rua.
          Celebrada a linguagem, eu invoco silêncios para tecer uma cortina de búzios, conchas, um lençol com a vibração das cores dos corais, uma rede tecida com as histórias de ilhas desconhecidas, eu arrasto uma tarrafa de peixes prateados que são nossos retratos pelas ilhas que desconhecíamos, eu chamo Noel,Cartola e Pixinguinha , eu convoco tambores para chamar os olhos dela para mim.
         Eu fabrico sete-sóis e uma nuvem que faz voar .

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando eu era pequena.

Eu queria mesmo era aprender a nadar na barragem onde só os meninos podiam ir no final do dia, as meninas só iam de manhã pra ajudar as mães a lavarem os pratos, mas meu irmão me levou e eu aprendi com ele a nadar, isso depois de tomar muita água e puxar forte meu fôlego, aprendi também a pescar ,mas eu preferia ir à noite , porque me atraia mais a lua do que os peixes,mas meninas no rio à noite pouco se via, mas ele me levou mesmo assim, mesmo ficando com um bico enorme quando seus amigos davam em cima de mim.
Quando eu era criança eu queria matar passarinho que nem ele, mas errava as bala de badogue e ele ria.
Fui então pegando gosto por fabricar balas de barro do tangue de pai, e das balas fiz fazendas e das panelas de mãe fiz uma bateira pra tocar com uma banda imaginária que nunca tive, fiz das tampas da panela pregadas nas estacas de segurar o varal um volante de um carro, e um dia com Diguinho pendurado em minhas costas quebrei o muro feito mais de terra do que de cimento ,assim com muitos feijões hoje tem mais caldo do que grão, o tijolo quebrou e caiu na cabeça dele. 
Vivemos assim a infância descobrindo o amor nas tensões de pregos enfiados nos peitos do pé e no silêncio da lua, Arlindo me ensinou muito de adulto sendo criança,quando hoje eu sei nadar por essas alegorias, descansando numa pedra submersa no rio eu vi o céu de um jeito que quem num sabe ir até num vê. 
Hoje ele tem filho que diz meu nome e minha infância revive nessas arapucas que ele ensinou o menino a fazer nas últimas férias.
Quando eu era pequena eu via pouco tv, porque eu queria mesmo era poder brincar embaixo da carroça de pai, eu queria aprender a andar de bicicleta naquela monark vermelha que quase me aleija os dedos.
Eu era do mato.


domingo, 16 de agosto de 2015

"Abraçar e agradecer"

             Agosto todo amarelo, nome assonante como minhas palavras preferidas. Flores amarelas com gotinhas vermelhas vieram alegres das mãos dela , foi presente. A imensidão do mês de agosto, que tanto irrita paulistanos apressados, não se precipita na contagem dos dias,mas alonga as coisas bonitas dentro do peito. Sábado à tarde, deitada naquela colcha de retalho, no silêncio daquela grama do parque, ela achou um cabelo branco na minha cabeça, bem na frente, eu sorri sem pressa, porque eu estou contemplativa, eu estou. Vi notícias tristes na televisão e fiquei com o peito apertado, tomei vinho bordô barato e comi torrada com doce de leite, conversamos e no meio das palavras e dos rostos, senti a harmonia que o tempo engrossa nos afetos, aquele homem barbudo e menino veio para nos ver e falar e ouvir, a cidade de São Paulo assiste aos vincos no meu rosto e aos meus olhos amolecidos das coisas bonitas que a vida dá.               
                   Esse ano tenho aprendido muito de mim mesma, do meu apego ao meu corpo, onde sou,de onde  falo, mas na calmaria que não veio sem dor, vejo milagrar orvalhos de mulher. Vi um homem bruto chorar soluços desmantelados que chamaram meus ouvidos atônitos para a confusão do mundo.  Senti a calmaria em minha unidade, e senti a modéstia e a generosidade de não querer parir, é egoísmo ser mãe. Eu comeria minha cria com os olhos, esses mesmos que veem o mundo sem cercas e arames, essa coisa bruta de parir é um magnanimidade que foi apodrecida pelos estatutos ,pelo sangue nos olhos que todos nós carregamos, deve ser ,também, dessa truculência que Clarice fala.           
               Eu quero mesmo uma simplicidade vagabunda que não sabe o nome das coisas e por isso,inventa-as mais bonitas, mais coloridas. Eu divido meu silêncio e minha confusão com ela, ela é uma mulher que invoca um mar no meu peito, água querendo fluir , fruir os mistérios dos seus olhinhos miúdos que brilham e gargalham risadas de dendê e pimenta. Seu corpo : visgo, carne, relâmpago e desejo, fúria e febre de mulher, de vestido , de rendeiras costurando contos do mar, seu corpo é. Dividir as minhas frases que ficam querendo fim, umas nem tem, ela sabe, conversas bonitas que se fazem às vezes com a respiração e os olhos rentes: pupilas acesas em encontro, tudo isso é uma coisa que é linda. A comida, o sal, o café, o alho, a escolha da rota do acarajé ou das férias, o livro enfeitado com as letras que me escrevem cartas.      
                 É dela meus olhos, meu desejo , minhas cartas ridículas com palavras e desenhos esdrúxulos. É para ela que eu conto o medo da loucura legitimada pelos imóveis, pelos móveis. A vida simples nas cidades calmas e quentes, os becos, as vielas, os P.Fs dos bares de tantas periferias, os sambas de roda do centro, o livro novo do autor desconhecido, a palavra bruta dos homens de deus, a cerveja, o pesar das notícias de violência, a compaixão sentida pelos alunos, o medo das sementes do mal, a alegria da comida gostosa, do encontro amigo, a secura da academia, com ela divido o mundo visto, o espaço do guarda roupa, as dúvidas, o medo, a mansidão, a preguiça, o gozo.     
          Meu intento de palavra e corpo é dela.Flor, obrigada por pela estar, tua presença é presente todo dia.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Bora ser feliz?!


          Dias rasgados de sol, mesmo quando esfriou e no jornal deu que era a tarde mais fria do ano. De mãos agarradas no teu seio e na tua mão, adormeci sonhando desejo de amêndoas com avelã, respirando esse cheiro de coisa de comer que seu corpo emana. Um mar nordestino nos espera, as mesas e cadeiras e comidas esperam nossos sorrisos bobos, nosso silêncio diante do pôr do sol, diante das águas ineditamente vistas aos nossos olhos. Na gaveta , protetor solar, creme de pentear, sabonete líquido, cartão de memória, vestidos , calcinhas novas, sorrisos esperando a cidade nova, o itinerário do transporte público que desconhecemos, as ruas anunciadas pelo google mapas, a paz de teu sorriso Iemanjá dissolvendo qualquer coisa feia. Já antevejo teu corpo naquele vestido branco que tu deslumbrou num dia de samba, branco contrastando com tua pele queimada de sal e sol, minha boca já é alegria de te pensar dona dos meus olhos , perdidos no encanto de tua doçura bruta,eles brincam às vezes apartados do que te sai da boca, escravos da harmonia que teu corpo é,veem tontos de fruição e mistério tua dança no mundo.
             Viver atenta aos teus passos no mundo, teus passos de quem carrega uma lua vermelha , assistir à sua luz dentro do corpo que faz ser quem é, escolher as cores e os panos que te cobrem as curvas, que escondem o que meus olhos gozam sob a luz do sol de manhã, entrando pela janela. Entrando pela janela ,descaradamente, o sol imperava afazeres domésticos, compras em açougues lotados ,em pontos de ônibus, em pontos de trabalho, enquanto dissolvidas no cansaço dos nossos cheiros nossos corpos preguiçosos: pernas enlaçadas, lençóis no chão, enquanto nosso tento tendia pela celebração das bocas, ungidas de sim, dizendo primaveras lilases nos ouvidos do mundo.
              Minha Preta, na linguagem num cabe o pedaço de mundo bonito que nossos olhos mergulham, signos ordenados assim, entre vírgulas e pontos não dizem do dengo de manhã, da manha nossa de cada dia, nem do nosso encontro.
             Nem Barthes nem Lacan, Manoel de Barros falaria melhor de nós, fosse preciso açucenaríamos um paralelepípedo, mas faremos mais, colocaremos uma rede verde para nossa varanda balançar nossa preguiça domingueira, nosso café preto de tarde, nosso encontro.
            Um dia na nossa pousada no cu do mundo, deixaremos uma parede para o Manoel de Barros encantar outros casais, nela ficará assim  "Esqueçam o que Lacan disse, Açucenem-se"