segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quando eu era pequena.

Eu queria mesmo era aprender a nadar na barragem onde só os meninos podiam ir no final do dia, as meninas só iam de manhã pra ajudar as mães a lavarem os pratos, mas meu irmão me levou e eu aprendi com ele a nadar, isso depois de tomar muita água e puxar forte meu fôlego, aprendi também a pescar ,mas eu preferia ir à noite , porque me atraia mais a lua do que os peixes,mas meninas no rio à noite pouco se via, mas ele me levou mesmo assim, mesmo ficando com um bico enorme quando seus amigos davam em cima de mim.
Quando eu era criança eu queria matar passarinho que nem ele, mas errava as bala de badogue e ele ria.
Fui então pegando gosto por fabricar balas de barro do tangue de pai, e das balas fiz fazendas e das panelas de mãe fiz uma bateira pra tocar com uma banda imaginária que nunca tive, fiz das tampas da panela pregadas nas estacas de segurar o varal um volante de um carro, e um dia com Diguinho pendurado em minhas costas quebrei o muro feito mais de terra do que de cimento ,assim com muitos feijões hoje tem mais caldo do que grão, o tijolo quebrou e caiu na cabeça dele. 
Vivemos assim a infância descobrindo o amor nas tensões de pregos enfiados nos peitos do pé e no silêncio da lua, Arlindo me ensinou muito de adulto sendo criança,quando hoje eu sei nadar por essas alegorias, descansando numa pedra submersa no rio eu vi o céu de um jeito que quem num sabe ir até num vê. 
Hoje ele tem filho que diz meu nome e minha infância revive nessas arapucas que ele ensinou o menino a fazer nas últimas férias.
Quando eu era pequena eu via pouco tv, porque eu queria mesmo era poder brincar embaixo da carroça de pai, eu queria aprender a andar de bicicleta naquela monark vermelha que quase me aleija os dedos.
Eu era do mato.


domingo, 16 de agosto de 2015

"Abraçar e agradecer"

             Agosto todo amarelo, nome assonante como minhas palavras preferidas. Flores amarelas com gotinhas vermelhas vieram alegres das mãos dela , foi presente. A imensidão do mês de agosto, que tanto irrita paulistanos apressados, não se precipita na contagem dos dias,mas alonga as coisas bonitas dentro do peito. Sábado à tarde, deitada naquela colcha de retalho, no silêncio daquela grama do parque, ela achou um cabelo branco na minha cabeça, bem na frente, eu sorri sem pressa, porque eu estou contemplativa, eu estou. Vi notícias tristes na televisão e fiquei com o peito apertado, tomei vinho bordô barato e comi torrada com doce de leite, conversamos e no meio das palavras e dos rostos, senti a harmonia que o tempo engrossa nos afetos, aquele homem barbudo e menino veio para nos ver e falar e ouvir, a cidade de São Paulo assiste aos vincos no meu rosto e aos meus olhos amolecidos das coisas bonitas que a vida dá.               
                   Esse ano tenho aprendido muito de mim mesma, do meu apego ao meu corpo, onde sou,de onde  falo, mas na calmaria que não veio sem dor, vejo milagrar orvalhos de mulher. Vi um homem bruto chorar soluços desmantelados que chamaram meus ouvidos atônitos para a confusão do mundo.  Senti a calmaria em minha unidade, e senti a modéstia e a generosidade de não querer parir, é egoísmo ser mãe. Eu comeria minha cria com os olhos, esses mesmos que veem o mundo sem cercas e arames, essa coisa bruta de parir é um magnanimidade que foi apodrecida pelos estatutos ,pelo sangue nos olhos que todos nós carregamos, deve ser ,também, dessa truculência que Clarice fala.           
               Eu quero mesmo uma simplicidade vagabunda que não sabe o nome das coisas e por isso,inventa-as mais bonitas, mais coloridas. Eu divido meu silêncio e minha confusão com ela, ela é uma mulher que invoca um mar no meu peito, água querendo fluir , fruir os mistérios dos seus olhinhos miúdos que brilham e gargalham risadas de dendê e pimenta. Seu corpo : visgo, carne, relâmpago e desejo, fúria e febre de mulher, de vestido , de rendeiras costurando contos do mar, seu corpo é. Dividir as minhas frases que ficam querendo fim, umas nem tem, ela sabe, conversas bonitas que se fazem às vezes com a respiração e os olhos rentes: pupilas acesas em encontro, tudo isso é uma coisa que é linda. A comida, o sal, o café, o alho, a escolha da rota do acarajé ou das férias, o livro enfeitado com as letras que me escrevem cartas.      
                 É dela meus olhos, meu desejo , minhas cartas ridículas com palavras e desenhos esdrúxulos. É para ela que eu conto o medo da loucura legitimada pelos imóveis, pelos móveis. A vida simples nas cidades calmas e quentes, os becos, as vielas, os P.Fs dos bares de tantas periferias, os sambas de roda do centro, o livro novo do autor desconhecido, a palavra bruta dos homens de deus, a cerveja, o pesar das notícias de violência, a compaixão sentida pelos alunos, o medo das sementes do mal, a alegria da comida gostosa, do encontro amigo, a secura da academia, com ela divido o mundo visto, o espaço do guarda roupa, as dúvidas, o medo, a mansidão, a preguiça, o gozo.     
          Meu intento de palavra e corpo é dela.Flor, obrigada por pela estar, tua presença é presente todo dia.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Bora ser feliz?!


          Dias rasgados de sol, mesmo quando esfriou e no jornal deu que era a tarde mais fria do ano. De mãos agarradas no teu seio e na tua mão, adormeci sonhando desejo de amêndoas com avelã, respirando esse cheiro de coisa de comer que seu corpo emana. Um mar nordestino nos espera, as mesas e cadeiras e comidas esperam nossos sorrisos bobos, nosso silêncio diante do pôr do sol, diante das águas ineditamente vistas aos nossos olhos. Na gaveta , protetor solar, creme de pentear, sabonete líquido, cartão de memória, vestidos , calcinhas novas, sorrisos esperando a cidade nova, o itinerário do transporte público que desconhecemos, as ruas anunciadas pelo google mapas, a paz de teu sorriso Iemanjá dissolvendo qualquer coisa feia. Já antevejo teu corpo naquele vestido branco que tu deslumbrou num dia de samba, branco contrastando com tua pele queimada de sal e sol, minha boca já é alegria de te pensar dona dos meus olhos , perdidos no encanto de tua doçura bruta,eles brincam às vezes apartados do que te sai da boca, escravos da harmonia que teu corpo é,veem tontos de fruição e mistério tua dança no mundo.
             Viver atenta aos teus passos no mundo, teus passos de quem carrega uma lua vermelha , assistir à sua luz dentro do corpo que faz ser quem é, escolher as cores e os panos que te cobrem as curvas, que escondem o que meus olhos gozam sob a luz do sol de manhã, entrando pela janela. Entrando pela janela ,descaradamente, o sol imperava afazeres domésticos, compras em açougues lotados ,em pontos de ônibus, em pontos de trabalho, enquanto dissolvidas no cansaço dos nossos cheiros nossos corpos preguiçosos: pernas enlaçadas, lençóis no chão, enquanto nosso tento tendia pela celebração das bocas, ungidas de sim, dizendo primaveras lilases nos ouvidos do mundo.
              Minha Preta, na linguagem num cabe o pedaço de mundo bonito que nossos olhos mergulham, signos ordenados assim, entre vírgulas e pontos não dizem do dengo de manhã, da manha nossa de cada dia, nem do nosso encontro.
             Nem Barthes nem Lacan, Manoel de Barros falaria melhor de nós, fosse preciso açucenaríamos um paralelepípedo, mas faremos mais, colocaremos uma rede verde para nossa varanda balançar nossa preguiça domingueira, nosso café preto de tarde, nosso encontro.
            Um dia na nossa pousada no cu do mundo, deixaremos uma parede para o Manoel de Barros encantar outros casais, nela ficará assim  "Esqueçam o que Lacan disse, Açucenem-se"


quinta-feira, 25 de junho de 2015

infinitivo.

Sentir com a língua seu pé bem feito e macio, contornar com a boca as curvas macias da tua perna, deslizar meus desejos nos teus seios duros e volumosos, nos teus mamilos esfregar minha língua, febre e gozo anunciado de teu sexo, tirar sua meia sete oitavos com a surpresa de um viajante que encontra uma ilha perdida e sente a vaidade dos olhos nus numa  paisagem inédita que a retina não esquece, desenhar com meus cílios dançando sobre suas costas as intenções de quem, nua ,ver um mar e tem nos braços imperativos de nadar, nadar até a água acalmar os músculos.Entrelaçar meus olhos e meus dedos nas nuances ardentes de teu corpo todo e fazer do meu corpo encontro, na força acolchoada das nossas pernas unindo (nuas) a urgência que suas unhas cravadas nas minhas costas e e meus dedos enredados em seus cabelos exigem. Descansar minha cabeça na sua coxa e recuperar o fôlego sentindo o cheiro morno do teu suor na cadência abrasiva de teu corpo depois do gozo, sorrir mole lânguida e sentir o sal do meu próprio suor me saudar a língua que encontrou uma mar dentro de teu mundo-mulher que encontrou  força e verso que nunca serão ditos porque é língua de sangue e nervo, é língua que virtualidade nenhuma alcançará.Procurar ,percorrendo sua pele , seu abraço e descansar nos seus seios mornos.
Dormir com o gosto do teu sexo na língua, com o perfume quente dos teus cabelos filtrando rosas para o meu sono, abraçar teu corpo sonolento do cansaço da dança que o corpo fez.
Dormir e acordar tua.

domingo, 31 de maio de 2015

frigideira azul.

                       
             Nunca use coisa para começar um texto, é o que eu sempre digo para as turmas de ensino médio, é importante precisar o que se quer dizer, insisto. Pois bem, é sobre as  coisas bonitas que ela me faz que eu queria dizer, e nunca será preciso (adjetivo e verbo) porque tem jogadas inacreditáveis dos meus sentidos, que fugindo à regra do óbvio ,veem na frigideira não a utilidade prática de fritar alimentos, mas um azul que se destaca lindo e envolvente com a pele morena dela, uma pele morena que inspira todos os dengos do mundo. Há detalhes de alegria no jeito que ela sorri de achar uma poesia que se chama "glutamato monossódico" , há detalhes de alegria quando ela toma minha palavra antes que essa vire som e manda a perversidade de um homem "se fuder", do jeito bruto e revoltado que só a doçura dela sabe responder, porque não é uma doçura plácida de adultos resignados é a doçura de uma criança que quer o primeiro pedaço do bolo de chocolate com recheio de cereja, e tem toda fome que só quem deseja ardentemente sabe da urgência. 
         O sono dela me prende os braços e eu insisto num sono que eu não tenho, porque eu durmo pouco, e vê-la dormir é menos vê-la que sabê-la, eu fico no silêncio do quarto ,escutando o barulho de mar que seu dorso moreno invoca, um dorso que impera nos meus sentidos, por onde eu passeio poros e dentes. Os ombros macios que são equilíbrio de minhas mãos tontas do gozo que o corpo quis e teve.
          Fora do quarto, um turbilhão de afazeres, descartáveis e necessários, nos esperam : o preço pelo teto, pela luz, pelo transporte, a logística, a moradia , a casa grande que num é minha. Nessas horas em que o plano de cigana me salta aos olhos, nessas horas, ela entende meu silêncio, eu sei que ela sabe que eu queria prolongar a noite à luz do dia.
           Ter um mar numa manhã de frio parece mentira. Ir na contramão do óbvio é coisa que acarinhada pelos olhos dela vira dança. Porque eu quero descansar da festa do seu corpo achando esses detalhes que sua presença traz, suas pernas nuas me contam de cheiros de pimenta e flor,de força e sal. Mais nu que meu corpo são meus olhos quando coberta de luz ela diz sim com a língua e com o olhar.
          Meus sentidos vivem, vivem,vivem alegrias ora silenciosas , ora escandalosas que meu corpo ganha, às vezes dormindo, às vezes túmido de sim explodindo água.


            Tua,Flor
        
         

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Porque.

              É porque com uns dias a mais eu vou ter tempo de comprar umas meias novas para vestir embaixo de meus vestidos coloridos, vou também finalmente achar aquele trecho de Memorial do Convento pra ler para você, vou procurar os cartões de memória de minha câmera e fotografar você vestida como uma personagem do Tarantino, do Almódovar, vou ficar atoamente perdida nessas suas sardas engraçadas, tenho uns silêncios longos carecendo desse seu jeito de abraçar que parece me apartar das coisas ruins.
             Eu prefiro silêncio à repetição dos números para comer, para vestir, para morar, para medir o sangue, a água. A agulha sempre pronta a apontar erro na contagem da dor.
              É porque com uns dias de folga , podemos ir àqueles sebos da praça João Mendes e encontrar gramáticas da década de 20, prefácios com dedicatórias usando mesóclises , e até marcadores de textos antigos contando histórias de casais apaixonados jurando amor e melindres dentro dos livros agora amarelos de tanto tempo passando do lado de fora da rua.
                É porque com mais tempo livre para estarmos de olhos irrigados da doçura que esses encontros dão, talvez dê tempo de finalmente assistirmos ao filme de Fellini,
              Na hipérbole das cores translúcidas das borboletas pouco vistas, no copo de vidro transparente e vagabundo com o gole de café preto que eu te levo de manhã para te acordar com minhas línguas e meus olhos tomados pelos seus olhos miúdos ainda sonolentos, na intenção dos gestos querendo encontro, na dilatação macia de teus músculos dizendo sim, na doçura das tuas mãos me invadindo a nuca, esses encontros  sou eu dada à teu desejo intenso e contínuo.
           Se eu pudesse fundava um feriado hoje ainda para fazer o sol nascer a noite toda, pudesse, rasgava o livro de ponto, jogava fora  os boletos, os números, cessaria a  sintaxe frágil dos diálogos mal ditos e falava das paixões que alimentam as revoluções, pudesse, eu faria tudo para roubar você pra mim.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

De Cristo.

               Eu não sei como é ter um filho, eu sei que dói ver homens vestidos de preto matando meninos "pretos de tão pobres".  Eu sei que nas conversas nesse dia de sexta que feriadaram um assassinato e comungam a esperança na ressurreição , eu sei que ouvi de gente que tem dinheiro,tem o de comer e o onde morar ouvi planos para investir e fazer mais dinheiro e lamentaram a morte do filho do governador. De sangue ninguém falou, um menino morreu no Rio, um menino sempre morre na periferia, onde a polícia tão aclamada pelo povo quer número de presos de mortos e de homens pretos na estatística para fazer a segurança dos brancos que querem ganhar dinheiro.
          Como foi que essa mãe aleijada por balas do estado comeu comida nessa sexta feira santa? Um menino morto desse jeito cruel e perverso trouxe pesar nesse dia em que a morte faz feriado.
       Homens brancos e  de oratória bíblica estão querendo mais números e matarão antes do corpo as almas dos meninos aprisionados aos dezesseis.
      A limpeza nas mãos do que fazem as escolhas não escondeu de Blimunda  _ olhos saramaguianos de ver_ os vermes estourando em pus dentro de tantos homens.
      Como você que não sente mais pesar chegou a esse lugar de anestesia?Não te dói que um menino morra e que você pague a essa polícia para aleijar uma família? Por que teu nariz só sente cheiro de dinheiro?Você não vê o pus nos homens, o sangue de tantos meninos? 
          Hoje há pesar e dor pela morte de meninos e pela falta de almas sensíveis, há pesar pelos que encheram o bucho de comida, os sentidos de vinho e ordenaram que mais gente morra.